dia 9
depois do almoço

enquanto meu filho dormia, peguei a minha filha maior e saí de carro, para ir ao mercado e passar na sapataria pra pegar umas coisas que ficaram prontas. chovia. ela dormiu a duas quadras de casa.

liguei para a sapataria para que deixassem minha sacola à mão (já estava tudo pago), deixei minha filha dormindo no carro e desci na porta pra pegar. ao fechar e trancar a porta do carro, tive uma sensação estranha, um tipo de liberdade ou vislumbre de loucura que fez parecer possível esquecer minha filha lá.

é lógico – se me conhecer – que eu não esqueceria. até porque, pra onde eu iria? mas foi uma sensação engraçada. ampliei o sentido: é possível esquecer uma filha? é isso que tá pegando? ter que esquecê-los pra seguir em frente, pra fazer o que tem que ser feito?

voltei correndo pro carro e não sabia bem pra onde ir.  eu tenho uma política com meus filhos que é muito simples: eu não os acordo, a não ser quando muito necessário. então eu vi uma padaria com uma cobertura sobre a entrada (ainda chovia), estacionei, comprei um cigarro e um isqueiro e entrei no carro. me senti mal. mas ela dormia.

voltei a sair do carro, acendi o cigarro e fumei, ali. fumei só meio cigarro. a culpa (mas o que eu fiz??), o medo de, sei lá, meu pai passar justo por ali, tudo isso fez com que eu arremessasse o cigarro longe, entrasse no carro, e fosse ao mercado, onde esperei dentro do carro por 20 minutos para, aí sim, acordá-la (se não, meu filho de casa acordaria e eu não estaria lá, apenas a empregada).

enquanto eu fumava, a culpa e o medo fizeram com que eu me sentisse uma adolescente. completamente, e exatamente. e aí eu entendi: ok, é pra onde toda terapia nos leva. pra infância, ou pra logo depois dela.


e eu fiquei com raiva desse mundo cruel de obrigações e papéis e julgamentos. e também de tanta informação que leva a tanta patrulha: poxa vida. uma mãe não pode mais fumar, nem beber, nem deixar o filho EM SEGURANÇA no carro sem achar que mil pedras serão lançadas contra ela.
o que uma mãe pode fazer, além de amar? por que pintamos de abandono tanta coisa que não o é?

eu sei o que é abandono. e minha mãe não fumava, nem bebia, e provavelmente não me deixava dormindo no carro para, ao lado da janela, fazer o que bem entendesse.

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