dia 10 (parte 2)
23:05
frio e vinho ruim

de repente eu acho que ficar pensando no que eu vou escrever está me desviando do objetivo inicial, que era sentir.
aí eu fecho meus olhos e pá - os sentidos se aguçam, eu sinto meu corpo amolecer, e os barulhos crescem imediatamente, e eu posso ouvir tudo. e eu sinto, de novo, que se eu fechar um pouquinho mais os olhos vou me perder lá dentro. e se eu me perder, quem vai me achar?

me lembro então de tudo o que não fiz e esse pensamento me entristece um pouco.

mas e se o que eu me propus a fazer envolver escrever, eu sinto que também vou me perder em todas essas palavras e pensamentos e lógicas – e se eu me perder, quem vai me achar? quem vai me ler? esse blog não faz mais sentido.

preciso me reinventar.

por que eu precisaria me perder de mim pra me encontrar?
e se eu me perder, quem vai me achar?
e se eu me perder, o que vão achar?

dia 10 (parte 1)
fim de tarde
com cappuccino

na única fenda de silêncio aberta em um dia, nos 10 minutos entre um filho dormir e o outro acordar, eu sentei e fumei. e percebi que essa pequena conexão faz com que eu fique mais conectada ao que acontece ao longo do dia. eu fico mais presente, mais carinhosa, mais paciente. melhor. será isso?


férias, férias, eu nunca mais terei férias.


uma coisa que urge, pra mim, é descobrir como viver sem esperar o sábado pra beber, o final de semana para estar junto, as viagens de férias pra me divertir, como fazer com que o dia-a-dia seja ele mesmo bom. porque de outro jeito nunca fez sentido pra mim. mas como me organizar para desestruturar a vida?

acho que a felicidade é abrir uma garrafa de vinho – ou mais – numa noite que não promete nada. promessas de felicidade mais além: dispenso.

continuo agradecendo os 10 minutos pra fumar meu cigarro. ainda não sei bem o que fazer com quem achar ruim. se é que alguém teria esse direito.

dia 9
depois do almoço

enquanto meu filho dormia, peguei a minha filha maior e saí de carro, para ir ao mercado e passar na sapataria pra pegar umas coisas que ficaram prontas. chovia. ela dormiu a duas quadras de casa.

liguei para a sapataria para que deixassem minha sacola à mão (já estava tudo pago), deixei minha filha dormindo no carro e desci na porta pra pegar. ao fechar e trancar a porta do carro, tive uma sensação estranha, um tipo de liberdade ou vislumbre de loucura que fez parecer possível esquecer minha filha lá.

é lógico – se me conhecer – que eu não esqueceria. até porque, pra onde eu iria? mas foi uma sensação engraçada. ampliei o sentido: é possível esquecer uma filha? é isso que tá pegando? ter que esquecê-los pra seguir em frente, pra fazer o que tem que ser feito?

voltei correndo pro carro e não sabia bem pra onde ir.  eu tenho uma política com meus filhos que é muito simples: eu não os acordo, a não ser quando muito necessário. então eu vi uma padaria com uma cobertura sobre a entrada (ainda chovia), estacionei, comprei um cigarro e um isqueiro e entrei no carro. me senti mal. mas ela dormia.

voltei a sair do carro, acendi o cigarro e fumei, ali. fumei só meio cigarro. a culpa (mas o que eu fiz??), o medo de, sei lá, meu pai passar justo por ali, tudo isso fez com que eu arremessasse o cigarro longe, entrasse no carro, e fosse ao mercado, onde esperei dentro do carro por 20 minutos para, aí sim, acordá-la (se não, meu filho de casa acordaria e eu não estaria lá, apenas a empregada).

enquanto eu fumava, a culpa e o medo fizeram com que eu me sentisse uma adolescente. completamente, e exatamente. e aí eu entendi: ok, é pra onde toda terapia nos leva. pra infância, ou pra logo depois dela.


e eu fiquei com raiva desse mundo cruel de obrigações e papéis e julgamentos. e também de tanta informação que leva a tanta patrulha: poxa vida. uma mãe não pode mais fumar, nem beber, nem deixar o filho EM SEGURANÇA no carro sem achar que mil pedras serão lançadas contra ela.
o que uma mãe pode fazer, além de amar? por que pintamos de abandono tanta coisa que não o é?

eu sei o que é abandono. e minha mãe não fumava, nem bebia, e provavelmente não me deixava dormindo no carro para, ao lado da janela, fazer o que bem entendesse.