00:34
e eu chorei porque hoje significa morte quem pra mim era só vida.
meu certo capitão rodrigo, que falta você me faz.
um cigarro por dia
um diário do cigarro. um cigarro diário.
dia 10 (parte 2)
23:05
frio e vinho ruim
de repente eu acho que ficar
pensando no que eu vou escrever está me desviando do objetivo inicial, que era
sentir.
aí eu fecho meus olhos e pá - os
sentidos se aguçam, eu sinto meu corpo amolecer, e os barulhos crescem imediatamente,
e eu posso ouvir tudo. e eu sinto, de novo, que se eu fechar um pouquinho mais
os olhos vou me perder lá dentro. e se eu me perder, quem vai me achar?
me lembro então de tudo o que não
fiz e esse pensamento me entristece um pouco.
mas e se o que eu me propus a
fazer envolver escrever, eu sinto que também vou me perder em todas essas
palavras e pensamentos e lógicas – e se eu me perder, quem vai me achar? quem
vai me ler? esse blog não faz mais sentido.
preciso me reinventar.
por que eu precisaria me perder
de mim pra me encontrar?
e se eu me perder, quem vai me
achar?
e se eu me perder, o que vão
achar?
dia 10 (parte 1)
fim de tarde
com cappuccino
na única fenda de silêncio aberta
em um dia, nos 10 minutos entre um filho dormir e o outro acordar, eu sentei e
fumei. e percebi que essa pequena conexão faz com que eu fique mais conectada
ao que acontece ao longo do dia. eu fico mais presente, mais carinhosa, mais
paciente. melhor. será isso?
férias, férias, eu nunca mais
terei férias.
uma coisa que urge, pra mim, é
descobrir como viver sem esperar o sábado pra beber, o final de semana para
estar junto, as viagens de férias pra me divertir, como fazer com que o
dia-a-dia seja ele mesmo bom. porque de outro jeito nunca fez sentido pra mim.
mas como me organizar para desestruturar a vida?
acho que a felicidade é abrir uma
garrafa de vinho – ou mais – numa noite que não promete nada. promessas de
felicidade mais além: dispenso.
continuo agradecendo os 10
minutos pra fumar meu cigarro. ainda não sei bem o que fazer com quem achar
ruim. se é que alguém teria esse direito.
dia 9
depois do almoço
enquanto meu filho dormia, peguei
a minha filha maior e saí de carro, para ir ao mercado e passar na sapataria
pra pegar umas coisas que ficaram prontas. chovia. ela dormiu a duas quadras de
casa.
liguei para a sapataria para que
deixassem minha sacola à mão (já estava tudo pago), deixei minha filha dormindo
no carro e desci na porta pra pegar. ao fechar e trancar a porta do carro, tive
uma sensação estranha, um tipo de liberdade ou vislumbre de loucura que fez
parecer possível esquecer minha filha lá.
é lógico – se me conhecer – que
eu não esqueceria. até porque, pra onde eu iria? mas foi uma sensação
engraçada. ampliei o sentido: é possível esquecer uma filha? é isso que tá
pegando? ter que esquecê-los pra seguir em frente, pra fazer o que tem que ser
feito?
voltei correndo pro carro e não
sabia bem pra onde ir. eu tenho uma
política com meus filhos que é muito simples: eu não os acordo, a não ser
quando muito necessário. então eu vi uma padaria com uma cobertura sobre a
entrada (ainda chovia), estacionei, comprei um cigarro e um isqueiro e entrei
no carro. me senti mal. mas ela dormia.
voltei a sair do carro, acendi o
cigarro e fumei, ali. fumei só meio cigarro. a culpa (mas o que eu fiz??), o
medo de, sei lá, meu pai passar justo por ali, tudo isso fez com que eu
arremessasse o cigarro longe, entrasse no carro, e fosse ao mercado, onde
esperei dentro do carro por 20 minutos para, aí sim, acordá-la (se não, meu
filho de casa acordaria e eu não estaria lá, apenas a empregada).
enquanto eu fumava, a culpa e o
medo fizeram com que eu me sentisse uma adolescente. completamente, e
exatamente. e aí eu entendi: ok, é pra onde toda terapia nos leva. pra infância, ou pra logo depois dela.
e eu fiquei com raiva desse mundo
cruel de obrigações e papéis e julgamentos. e também de tanta informação que
leva a tanta patrulha: poxa vida. uma mãe não pode mais fumar, nem beber, nem
deixar o filho EM SEGURANÇA no carro sem achar que mil pedras serão lançadas
contra ela.
o que uma mãe pode fazer, além de
amar? por que pintamos de abandono tanta coisa que não o é?
eu sei o que é abandono. e minha
mãe não fumava, nem bebia, e provavelmente não me deixava dormindo no carro
para, ao lado da janela, fazer o que bem entendesse.
dia 8
00:52
já é amanhã, dizem (nunca é)
pessoas, essa ilusão.
escuto todo esse silêncio (se
escuto é porque não o é). a noite. as gotas de chuva que caem lá embaixo, onde
presumo que os ratos se escondem. não há perigo: todos se escondem. num dia
como esse... as pessoas se escondem. mas não no mesmo lugar que os ratos,
imaginam.
alguém fala ao longe – na TV?
esses carros que vão, sem que
ninguém os leve.
---
se eu não consigo ser, não posso
esperar que ninguém seja. mas esse esperar é permitir. ou deveria ser.
eu nem sequer admito que alguém
possa existir.
como juntar isso tudo que é numa
só coisa – pessoa?
dia 7
(depois de 3 ou 4 dias) (terceiro do dia)
22:12
noite fora/dentro
acho que eu finalmente entendi.
preciso me cercar pra construir a minha cerca. a cerca como
proteção, mas não exatamente um muro: uma rede para que eu possa me jogar,
e quando cair... me segurar. me conter.
mas onde eu cai(b)o?
nunca coube em mim. imagine no outro... é isso: são outros. outros quinhentos!
---
-
você vai fumar?
-
bem, eu posso fumar ou posso chorar.
---
sustentar o insustentável. sou pesada; cerquem-me os bons.
((meus parênteses são meus paraquedas))
dia 6
22:09
é noite
é engraçado como quando tudo parece tomar um sentido maior,
eu vou e bagunço tudo.
é assim que eu tava me sentindo quando sentei pra fumar esse
cigarro. eu não tava conseguindo ver sentido (nem em fumar, nem em mim, nem
nesse blog, pra ser bem sincera).
e aí, eu me senti diferente. mas não é bem isso. eu não me
senti diferente.
eu me senti.
de repente as coisas não faziam mais sentido. o mundo lá
fora, os barulhos, vocês. essas imagens no meu ‘cinzeiro’ que não querem dizer
nada, ainda que me gritem algo. o mundo de fora. eu não sou nada disso.
o que eu sou é muito maior. levei um susto ao perceber que o
que eu sinto é ainda maior do que o que eu penso.
e eu sorri.
queria guardar esse momento pra sempre.
(escrito à contragosto, porque o que eu consigo passar pro
“papel” já é menor. e eu não queria voltar à redução)
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